Uso do calcário é subestimado nas lavouras de MT, alertam especialistas

A adesão a manuais de prescrição concebidos a outras regiões do país ou mesmo a adoção de cálculos rasos, sem a especificidade de técnicas e investimentos que vão ao encontro da moderna agricultura de precisão, estão promovendo nas lavouras mato-grossense a aplicação de doses de calcário deficitárias. Cálculos e aplicações que subestimam a real necessidade do insumo, de forma customizada, geram um resultado nem de longe desejado pelos produtores rurais:

correção ineficiente do solo, produtividade aquém do real potencial de entrega das cultivares e, a longo prazo, a elevação dos custos de produção. 

 

O alerta comum entre renomados especialistas da pesquisa agronômica ligados a instituições como Embrapa, universidades federais e Fundação Mato Grosso foi um dos destaques do XXXVII Congresso Brasileiro de Ciência do Solo, em Cuiabá. Cerca de 2.000 pesquisadores, produtores rurais e acadêmicos de várias partes do país prestigiaram o congresso, no Centro de Eventos do Pantanal.

Insumo essencial à atividade agropecuária, o calcário é fundamental para o aumento dos índices de produtividade e lucratividade na soja, milho e outras culturas tradicionais, exigindo ao produtor rural a incorporação de evidências científicas às práticas da lida no campo. A relação entre calcário, correção da acidez e fertilidade do solo é direta, destacam os especialistas, tendo igualmente importância no sistema de plantio direto, já largamente adotado na agricultura de larga escala. E não somente às lavouras: o pasto que é base da pecuária extensiva também deve ter doses adequadas e regulares de calcário, dentro de um correto planejamento e manejo.

 

Silvino Guimarães Moreira, da Universidade Federal de Lavras, é taxativo: os cálculos matemáticos subestimam a real necessidade de aplicação de doses de calcário nas lavouras. Ele observa que há muitos produtores que sequer fazem calagem de incorporação profunda antes da adoção do sistema de plantio direto, adotando apenas a aplicação superficial. Estudos da década de 90, relata Moreira, já evidenciavam o maior enraizamento das plantas, maior absorção de água do solo e maior absorção de nutrientes, com destaque ao nitrogênio e potássio, dados os efeitos benéficos da introdução da calagem em perfis mais profundos do solo. 

 

“É um desafio construir fertilidade com o calcário. Para fazer essa construção no perfil do solo, é preciso ter esse manejo. Então, antes de entrar no plantio direto, é preciso fazer a lição de casa. O que está sendo o nosso desafio: muitos produtos, depois de entrar no plantio direto, já até venderam as grades para o ferro velho. Precisamos incorporar o calcário de forma profunda ao solo e muitas vezes o produtor sequer tem o maquinário básico necessário”, alerta. 

 

Além disso, chama a atenção o pesquisador de Lavras, estudo realizado em Nazareno, em Minas Gerais, revelou que os cálculos matemáticos subestimaram a real necessidade de calcário. In loco, o experimento em solo com alto percentual de argila mostrou que na camada superficial do solo, de até 20 centímetros de profundidade, a necessidade de aplicação de calcário era muito maior que a recomendação oficial de manuais seguidos à risca na região. Os pesquisadores identificaram que seriam necessárias 9 toneladas de calcário por hectare para que se atingisse a saturação por bases desejada para mais produtividade na lavoura, ao nível de 70% na escala do índice conhecido como V% (relativo aos cátions básicos trocáveis nas reações químicas que acontecem no solo). 

Coletânea de pesquisas apresentadas durante o congresso nacional realizado em Mato Grosso revela que as doses de calcário, em inúmeros experimentos realizados em MT e MG, deveriam ser elevadas de 50% a 100% para que o V% calculado seja realmente atingido no campo. É consenso entre os pesquisadores que é necessário rever as metodologias oficiais de recomendação de calcário para que o V% calculado realmente seja atingido. O Congresso Brasileiro de Ciência do Solo é uma iniciativa da Sociedade Brasileira de Ciência do Solo (SBCS) e é realizado a cada dois anos. Em 2019, a temática central correspondeu à intensificação sustentável em sistemas de produção.

 

“Por se tratar de um congresso global e o mais importante do gênero no país, discute-se todos os temas relevantes e principais gargalos sobre o uso sustentável dos solos, desde assuntos na fronteira do conhecimento como nanotecnologia e biotecnologia na agricultura, até práticas de manejo, educação em solos e extensão rural”, destaca o presidente da 37ª edição, professor Dr Milton Ferreira de Moraes.  

 

 O 37º CBCS foi promovido pelo Núcleo Regional Centro-Oeste (NRCO) da SBCS, com realização da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), em parceria com a Universidade Federal de Goiás (UFG), EMBRAPA, IFMT, UNEMAT e outras instituições regionais de pesquisa, ensino e extensão.

 

Por: O Bom da Notícia

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